Um exercício de roteiro

Dos filmes bacanas que assisto, numa sala de cinema ou em casa, sempre me pego fazendo um exercício de roteiro - extrair a cena que revela a história do filme, a cena chave. É um exercício de concisão que compartilho com os amigos amantes de cinema e de roteiro, mais particularmente. Aqui não há adjetivos, descrições, muito menos o final da história. Você poderá, eventualmente, ouvir a voz dos personagens ao ler o trecho de uma fala ou outra. Assitindo ao filme você poderá concordar comigo ou não, se a cena que escolhi é mesmo a cena chave, afinal as boas histórias podem ser entendidas de diferentes maneiras. Todavia, uma coisa eu garanto: você terá mais da experiência cinematográfica, compreendendo melhor os enredos.

Acompanhe Cena chave e bom filme!

Partir


Partir, dirigido por Catherine Corsini, escrito por ela e Gaëlle Macé. Suzanne (Kristin Scott Thomas) levanta da cama no meio da noite. Ouvimos um tiro. Para Suzanne esta é a forma encontrada para partir. Descobrir o amor e ser alijado dele é como viver numa prisão. A morte aparece aqui não só como componente da tragédia, mas como elemento libertador.

Um sonho possível


Um sonho possível, escrito e dirigido por John Lee Hancock, a família branca e abastada de Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock) adota o jovem negro Michael Oher (Quinton Aaron) e o transforma num grande esportista. Sobre imagens de manchetes de jornal onde notícias de mortes e violência de negros da periferia, ela comenta que estes fatos continuam a acontecer cotidianamente, mas não com seu “filho”, provando que amor e boas condições econômicas transformam e resgatam as pessoas de qualquer inferno social.   

Há tanto tempo que te amo



Há tanto tempo que te amo, escrito e dirigido por Philippe Claudel, Juliette (Kristin Scott) ganha liberdade condicional depois de cumprir 15 anos pelo assassinato do filho de 6 anos: “A pior prisão é perder um filho, desta ninguém escapa”.

Coraline e o mundo secreto



Coraline e o mundo secreto, escrito e dirigido por Henry Sellic, baseado no livro de Neil Gaiman. O mundo real de Coraline é tedioso, ocupado pelo individualismo dos adultos com seu trabalho e seus problemas, um individualismo que não lhe dá espaço e voz. Os pais de Coraline só pensam nas suas prioridades. Mas Coraline também só pensa nas suas, e o mundo secreto é sua forma de lidar com a condição coadjuvante ocupada no arranjo de vida imposto pelos adultos. Nesta outra dimensão fantástica tudo é diferente, interessante, desafiador, coisas que são vistas somente com olhos de verdade e não com um par de botões costurados no rosto feito uma boneca de pano. O contraponto a este individualismo reinante acontece quando Coraline encontra as três crianças fantasmas que lhe pedem para encontrar seus olhos de verdade. Solidária pela primeira vez, Coraline encontra um valor superior pelo qual lutar e a partir daí cresce e se transforma. Transformar a si próprio é transformar o mundo.

Delírios



Delirios, escrito e dirigido por Tom DiCillo, é uma fábula moderna sobre o vazio e descartável mundo das celebridades instantâneas. O paparazzi Les (Steve Buscemi) leva o seu novo assistente Toby (Michael Pitt) para visitar seus pais, os presenteia com jornais e revistas onde suas fotos são publicadas para obter reconhecimento profissional, mas sua mãe o manda lavar as mãos a todo instante e o pai o xinga por fazer um trabalho sujo, fotografar pessoas às escondidas, expondo-as ao ridículo. Les se defende: “Me pagaram setecentos dólares por esta foto!” “Já apertei a mão do De Niro”. Esta é a dimensão exata do seu papel nesta engrenagem do show business, acender os flashes para fazer brilhar os medíocres e torná-los famosos nem que seja por 15 minutos.

O psicólogo



O psicólogo, O doutor está fora, de Jonas Pate. Patrick (Dallas Roberts) é um dos pacientes de Henry Carter (Kevin Spacey), obsessivo compulsivo, ele em dado momento pergunta à sua assistente, Daisy (Pell James), o que ela acha dele como pessoa. Ela responde sinceramente: “Você tem seus momentos”. Esta é a sina de todos, viver seus momentos tendo que lidar com a perda. Os pacientes e o próprio psicólogo Henry têm de seguir adiante mesmo sem saberem a razão por trás de tudo. Quando Henry lê a carta de despedida da mãe de Jemma (Keke Palmer) outra de suas pacientes enlutadas, não precisamos de narração para entendermos seu conteúdo. Só precisamos dos olhos de Henry. Este é um momento raro de puro Cinema.

Crimes de autor


Crimes de autor, de Claude Lelouch, escrito por Claude Lelouch e Pierre Uytterhoeven. O secretário Pierre Laclos (Dominique Pinon) da escritora Judith Ralitzer (Fanny Ardant) tem uma nova e poderosa história para o próximo romance que se chamará Deus é o outro. O personagem principal é ele próprio, o ghost writer de uma romancista famosa que está colocando um fim em anos de escravidão. Ao anunciar que pretende colocar o próprio nome neste romance, Pierre cita as palavras finais de A Comédia Humana de Dante Alighiere “Eu serei o autor e você será o drama”. Pierre quer fazer desaparecer um ser à sombra do sucesso da romancista famosa e fazer aparecer o escritor talentoso que há dentro dele. Em busca de personagens para este romance, Pierre conhece a cabeleireira Huguette (Audrey Dana) que vê o noivo Paul (Cyrille Eldin) desaparecer antes de ser apresentado à família. Huguette propõe a Pierre substituí-lo, fazendo aparecer um noivo perfeito para a família interiorana. Pierre tem uma irmã cujo marido também desaparece. O Comissário (Zinedine Soualem) que investiga o caso lembra que desaparecer é o sonho de milhões, mas que só alguns realmente conseguem. Ele próprio aparecerá no lugar do marido no coração dela. No início do filme um perigoso assassino desaparece da prisão. Ele pode ser qualquer um, representa o mal que existe dentro de nós. Aparecer e desaparecer é disso que o filme trata até que a verdadeira face dos personagens é revelada.

Do outro lado

Do outro lado, produzido, escrito e dirigido por Fatih Akin — Suzane (Hanna Schygulla) está no quarto da filha assassinada, lê o diário dela:“Esses passos, os meus passos, eu devo trilhar com força. Com coragem. Mesmo que a mamãe nem sempre entenda, o que me deixa surpresa. Ela também era assim. Mas independentemente da história dela... Que fiquei sabendo aos poucos... Eu tenho trilhado caminhos semelhantes aos dela... Talvez seja isso... Ela se vê em mim”.

Banquete do amor

Banquete do amor, de Robert Benton, escrito por Allison Burnett, é sobre a urgência de amar, mesmo nas relações duradouras, como a de Harry (Morgan Freeman) e Ester Stevenson (Jane Alexander). No quarto diante do espelho Harry está triste; “Somos só nós dois agora, mas um dia será só um, é uma expectativa insuportável”. Ester escova o cabelo, “Por isso temos que nos amar o mais intensamente possível agora”.

Ghost writer


O Escritor Fantasma (Ghost writer), dirigido por Roman Polanski, escrito por Robert Harris baseado em livro de sua autoria. O escritor (Ewan McGregor) é contratado e diz ao biografado que não pretende fazer jornalismo investigativo, mas é justamente esta busca da verdade que move seu espírito. Ao descobrir e revelar a verdade o escritor apenas assume sua condição de fantasma e deliberadamente se torna mais uma página virada na história, uma folha solta do original que voa e rola na rua.

Irina Palm

Irina Palm, de Sam Garbarski, também escrito por Martin Herron e Philippe Blasband. De uma forma ou de outra, todos estão prostrados, os pais diante da doença do filho, a avó sem recursos para custear o tratamento do neto, a contingência de sua idade avançada, a futilidade de uma vida mundana perdida entre amigas, chás e jogos de carta. É baixa a autoestima, quase não existe. Mas, por algo superior nada é degradante. Maggie descobre seu valor, “Eu sou boa nisso, sou um bom negócio pra você, Miki!”. A partir do reconhecimento deste valor, Maggie (Marianne Faithfull) aponta para o que faz aflorar e deve ser resgatado em forma de sentimento e humanidade.

Do outro lado


Do outro lado, produzido, escrito e dirigido por Fatih Akin — Suzane (Hanna Schygulla) está no quarto da filha assassinada, lê o diário dela:“Esses passos, os meus passos, eu devo trilhar com força. Com coragem. Mesmo que a mamãe nem sempre entenda, o que me deixa surpresa. Ela também era assim. Mas independentemente da história dela... Que fiquei sabendo aos poucos... Eu tenho trilhado caminhos semelhantes aos dela... Talvez seja isso... Ela se vê em mim”.

Piratas do rock


Piratas do rock, escrito e dirigido por Richard Curtis, o disc jockey Conde (Philip Seymour Hoffman), afunda com o barco que abriga a rádio pirata. Sob as águas, os discos de vinil flutuam, desejam submergir, viver, porque a liberdade não morre. Conde submerge ovacionado das águas revoltas, gritando: “Rock and Roll!”

Valente


Valente, de Neil Jordan mostra a busca por vingança de Erica Bain (Jodie Foster) vítima da violência urbana que prova o gosto desta mesma violência para reencontrar a paz. “Há muitas formas de morrer, mas é preciso achar uma forma de viver” ela ouve de uma vizinha. Um final catártico aguarda o espectador que acredita na Justiça pelas próprias mãos e um dilema, nesta guerra sangrenta quem será a última a morrer, a moral ou a ética?

A vida secreta dos dentistas

A vida secreta dos dentistas, de Alan Rudolf, escrito por Jane Smiley e Craig Lucas, sobre a falta de comunicação no casamento, David (Campbell Scott) na última cena trata os dentes de sua mulher Dana (Hope Davis): “Dentes, duas fileiras de pedras na carne, mas tão sensíveis ao seu modo como as pontas dos dedos, ou os lábios. Impossíveis, como o casamento, mas eles existem”.

You must remember this


You must remember this, de Richard Schickel, sobre a história da Warner Bros Studios, Clint Eastwood fala sobre a receita dos filmes: “Um bom roteiro, 50%, um bom elenco, mais 40%, sobram 10% pra gente (direção e produção) bagunçar”. Isso coloca em perspectiva a importância do roteiro num filme.

A partida


A partida, de Yojiro Takita , escrito por Kundo Koyama. Daigo (Masahiro Motoki) está na ponte sobre um riacho observando o esforço de um salmão nadando contra a correnteza, um salmão morto é levado correnteza abaixo. Um senhor idoso passa por ali. “Vendo os salmões!” ele diz jovialmente “Vamos, salmão, força!”. Daigo está lidando com a aceitação do trabalho de sua vida. “É triste subir a corrente para então morrer”. O peixe continua sua luta contra a correnteza. “Por que tanto esforço para depois morrer?”. “Talvez eles queiram voltar ao lugar onde nasceram”, responde o idoso antes de seguir seu caminho. “Vamos, salmão, força!”.

Estão todos bem

Estão todos bem, escrito e dirigido por Kirk Jones, baseado em roteiro de Massimo de Rita, Tonino Guerra e Giuseppe Tornatore. Frank (Robert De Niro) puxa conversa com uma passageira no trem, mostra a ela o fruto do trabalho de sua vida — a foto dos filhos e, pela janela da cabine, os cabos de telefone revestidos de PVC pendurados nos postes, passando ao lado na estrada de ferro. “Quantas conversas já passaram por estes fios, boas e más notícias”. Frank fabricou quilômetros de fios telefônicos, mas tem de ir pessoalmente travar contato com o mundo, sem com isso deixar os melhores momentos esquecidos no passado. É o último vôo do grande pássaro.